Voltando a tratar sobre a grande questão que envolve o "ser mestre" resolvi divagar um pouco mais sobre o tema, mas antes disso decidi diferenciar, à luz do dicionário, a significação de alguns termos que poderão ser vistos por todos nós nos Dojangs que visitarmos:

Técnico: Rubrica: esportes.
profissional encarregado de treinar e orientar taticamente um conjunto esportivo; treinador
Etimologia: gr. tekhnikós,ê,ón 'relativo à arte, à ciência ou ao saber, ao conhecimento ou à prática de uma profissão'

Treinador: adjetivo e substantivo masculino
que ou aquele que treina
1     Rubrica: esportes.
diz-se de ou profissional que instrui ou treina um atleta
2     Rubrica: esportes.

diz-se de ou profissional que treina jogadores e orienta taticamente um time; técnico

Instrutor: adjetivo e substantivo masculino
que ou aquele que instrui, que ensina, que adestra

Etimologia: lat. instrúctor,óris 'o que prepara, põe em ordem'

Professor: substantivo masculino

2    aquele que ensina, ministra aulas (em escola, colégio, universidade, curso ou particularmente); mestre
Etimologia: lat. professor,óris 'o que se dedica a'

Mestre: substantivo masculino
1     pessoa dotada de excepcional saber, competência, talento em qualquer ciência ou arte
2     indivíduo que ensina
3     artífice em relação aos seus oficiais ou aprendizes
Exs.: m. sapateiro
 m. carpinteiro
4         chefe ou iniciador de um movimento cultural, espiritual, etc.; mentor
Adjetivo
11   que é o mais importante; principal, fundamental
Ex.: pilar m.
12   que ultrapassa os limites habituais; enorme, fantástico
Etimologia: lat. magìster,tri 'o que manda, dirige, o que ensina', prov. por infl. do fr.ant. maistre ou do provç. Maestre

Fonte: Dicionário Houaiss, Edição 2009.

Fez-se necessário a criação dessa pequena tabela para ilustrar a minha linha de raciocínio e criar parâmetros entre os termos e também é necessário dizer que o foco desta breve dissertação são as artes marciais e o texto aqui contido é fruto de minha reflexão pessoal sobre o tema.

Antes de falar sobre mestres e discípulos sinto necessidade de falar das instancias anteriores para tornar meu pensamento mais claro àqueles menos graduados:
De uma maneira geral numa escola de artes marciais, Dojô ou Dojang, conforme o estilo, nós podemos encontrar uma ou várias pessoas envolvidas no processo de ensinar ou repassar o conhecimento, técnicas e movimentos marciais. Distinguir esses grupos de pessoas tornará mais fácil para um leigo avaliar o local onde pretende iniciar o seu aprendizado...

O primeiro tipo que falarei é do TREINADOR: o treinador é nada mais que uma pessoa que, sob ordens de alguém superior, “treina” outras pessoas dentro daquela referida arte. Este indivíduo pode ser um faixa preta mas  pode também ser um aluno faixa colorida mais graduado ou apenas mais velho, mas que possui um conhecimento razoável sobre as técnicas a serem treinadas, ele não ensina, ele apenas repassa aquilo que lhe fora ensinado aos demais, pode orientar aquecimentos, repassar técnicas aprendidas com os demais, enfim, ele está limitado ao que lhe é sabido e o que é lhe orientado repassar, ele não tem autonomia para fazer o que quiser, e mesmo que tivesse não teria todos os recursos necessários para realmente ensinar. Seu conhecimento, ainda que razoavel, é superficial.

O TÉCNICO, por sua vez, pode ser uma faixa preta, e normalmente é uma função exercida pelo líder do estabelecimento, porém, o técnico não precisaria necessariamente de ser faixa preta, aliás, existem excelentes mestres que são péssimos técnicos.  A figura do técnico é mais comum em artes marciais que se voltam para o lado esportivo, ele não precisa de sequer ser um praticante da arte em questão (não necessariamente), porém, tem que conhecer profundamente suas regras (de competição), saber nomes das técnicas e conhecer as mais eficazes, como melhor combiná-las, tem que ser um estrategista, conhecedor de táticas de combate, afim de melhor orientar os “estilistas-atletas” da melhor maneira de agir dentro de um tatame no confronto com um adversário. O Técnico pode ser compara a um jogador de xadrez, enquanto os atletas são suas pedras no jogo. O Atleta mais talentoso do mundo, nas mãos de um técnico medíocre dificilmente alcançará vitórias num estilo que busca o lado esportivo.

O INSTRUTOR é o tipo que mais encontramos nas academias por aí. Ele necessariamente é um faixa preta, pode ser 1º, 2º, 4º e até 10º dan! É um indivíduo que conhece, ou deveria conhecer, todas as técnicas da arte que está ensinando, ele tem um pouco de treinador, já que ele vai preparar os seus instruendos físicas e tecnicamente dentro da arte, também tem um pouco de técnico, já que vai passar a eles as táticas e combinações mais comumente usadas dentro da sua arte afim alcançar algum êxito nos combates que virem a participar. O instrutor ensinará contagens, termos técnicos, regras pré-estabelecidas da/pela arte. O Instrutor pode facilmente ser confundido por leigos com um professor ou mesmo um mestre, muitas vezes por conta do número de “risquinhos dourados” que ele possui na faixa, porém, todo o conhecimento que ele transmite, não possuirá a profundidade necessária para educar dentro da arte marcial, por mais que ele explique bem uma determinada técnica, por melhor transmita aquela técnica, ainda lhe faltará o algo mais! Ele é um manual ambulante, é como um livro, que transmite o conhecimento acumulado, mas não transmite a experiência real ou a sabedoria por traz daquele material.
Infelizmente, estou propenso a acreditar que artes marciais que se dedicam excessivamente ao lado esportivo, acabam, por perder sua essência e se tornam inaptas para produzirem mestres ou Grão-Mestres, e até mesmo simples professores.

Ao adentrar  no tema do PROFESSOR, provavelmente arranjarei briga com muita gente, já que vou mexer com a ferida de muitos...


O professor, assim como o instrutor, é necessariamente um faixa preta com seus tantos dans, possui todas as qualificações e habilidades de um instrutor, porém, difere do primeiro, por se distanciar, ao menos até certo ponto, do lado “esportivo” e se dedicar mais ao lado “ARTE”, o professor está mais preocupado com a educação do indivíduo do que na formação do atleta. O INSTRUTOR, assim como um técnico, tenderá a se dedicar mais àqueles indivíduos que demonstrarem mais facilidades para aprenderem técnicas e de serem “adestrados”, é quase que inconsciente, pois ele visa o rendimento, a performance, o destaque da sua escola! Ele se orgulha de formar campeões nos tatames! Não que ele despreze os menos talentosos, mas provavelmente seus olhos brilharão diferente diante das suas “estrelas”. O Professor, por sua vez, não fará grande distinção entre o “aluno atleta” e o “aluno praticante”, ele buscará as potencialidades a serem trabalhadas em cada um, respeitando o tempo destes – Cada aluno é uma pedra preciosa a ser trabalhada individualmente – . O professor, não se limitará ao conhecimento contido em manuais, ele se dedicará na formação do cidadão antes de tudo.
A História da Arte treinada e os conhecimentos filosóficos, culturais e éticos nela embutidos, para um professor, têm tanto ou maior peso que o treino de combate. Não quer dizer que um INSTRUTOR não conheça, não valorize ou não transmita tais conhecimentos, eles apenas não são o seu principal foco.

Entenda, não estou desmerecendo faixas pretas que são apenas instrutores ou sobrevalorizando aqueles que são grandes professores, pois na realidade eu gostaria que todo faixa preta fosse uma mescla equilibrada e justa dos dois, porém, nós ocidentais, devoradores de filmes fantasiosos e absurdos de artes marciais e programas de pseudo-lutas, estamos muito mais propensos a procurarmos um instrutor do que um professor. O pai quando leva seu filho para uma escola de artes marciais, muitas vezes, vai imaginando quantas medalhas seu filho terá em breve, as quais poderá mostrar aos seus amigos com orgulho dizendo: “meu filho é um campeão!”, isso é natural em nossa sociedade que segue regras ditadas pela mídia. Mesmo o pai que leva seu filho para treinar uma arte marcial, para que tenha mais disciplina, calma e autocontrole, lá no fundinho quer ver seu “filhão” com um monte de medalhas entortando-lhe o pescoço. Portanto, um “professor puro” sofrerá muito mais para conquistar o seu espaço nesse nosso “mundo ocidental” do que um Instrutor, falo mundo ocidental, mas não quer dizer que lá no oriente seja muito diferente, na realidade, o termo mais correto seria esse nosso “mundo globalizado”.

O professor de verdade tenta transmitir valores além da luta em si aos seus alunos, tenta buscar os porquês! Porém, a relação "aluno/professor" acaba assim que o aluno vai para sua casa, é uma relação até bem profunda, muito mais que a relação "instrutor/instruindo" ou "técnico/atleta", mas ainda assim é até certo ponto descompromissada, existe um respeito maior, um certo carisma, mas dificilmente vence a barreira dos muros do dojang.

É aqui que eu começa a adentrar na questão do mestre e discípulo, mas primeiro temos que entender o que é ser um mestre antes de entendermos essa complexa relação. Para tentar explicar esta relação vou utilizar-me de minhas próprias experiências pessoais.


Pessoalmente, nos meus 27 anos ligado às artes marciais, fui coordenados por vários mestres, e um em especial foi essencial para desenvolver o meu conceito de o que é um verdadeiro mestre... não, apesar do Grão mestre Sergio Fernandes ter sido absolutamente essencial para a formação do meu conceito do que é ser mestre, não é ele essa pessoa, foi um indivíduo, cujo nome é proscrito dentro da Semokwan ao qual fui ligado por algum tempo, que às avessas me mostrou os rudimentos desse conceito! As avessas porque este cidadão, ao meu ver, é a antítese do que é ser um “Mestre”; seu desespero por dans, por poder, por títulos, tudo isso demonstrou como não deve ser um mestre de verdade, mas foi uma pequena frase que ele me disse que despertou em mim o ideal do mestre que eu queria ser: O referido cidadão, acompanhou três exames de faixas coloridas em meu dojang, e no terceiro, durante um exame de taekwondo, especificamente, pediu que eu mandasse meus alunos demonstrarem uma técnica (na realidade uma base) denominada, segundo ele, “tikumbi”, virei-me para ele, no auge do meu então  “3º dan”, completamente desconcertado e esclareci que meus alunos não poderiam demonstrar tal técnica pois eu a desconhecia e, consequentemente não a ensinara, solicitei humildemente que a demonstrasse para que eu a aprendesse e pudesse ensiná-la e demonstrá-la num próximo exame. Todo orgulhoso de seu “poder e sabedoria superiores”, o cidadão levantou-se da cadeira e demonstrou a tal técnica, que para meu espanto eu conhecia a anos, porém com o nome de “Duit Kubi”  (Alunos meus mais antigos certamente lembrarão deste episódio insólito). Bom, até aí tudo bem essa divergência de nomenclaturas, mas a aberração só veio acontecer quando perguntei o “por quê” desta diferença nos nomes e foi neste momento, com um sorriso de superioridade nos lábios, dando tapinhas no meu ombro e na frente dos meus alunos que ele soltou a frase mágica que no futuro próximo abriria os meus horizontes: “não se preocupe, quando você for um mestre você vai entender, ainda não é a hora”. Bom, semanas depois fui até Guaxupé e tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o mestre Sergio Fernandes, me apresentando como representante deste tal “mestre” no evento, já que o mesmo não foi, dizendo-se adoentado, foi neste dia também que vim a descobrir todas as falcatruas que o mesmo cidadão cometeu contra a Semokwan, e que eventualmente o levaram a ser expulso. Por algum motivo, o Grão Mestre Sergio, resolveu me “adotar”, e eu humildemente abracei essa oportunidade e agradeço até hoje, já que jamais aprendi sobre arte marcial e sobre vida como aprendi com o mestre Sergio Fernandes.
Mas foi por oportunidade da nossa viajem para a Coréia do Sul em 2007, que a frase daquele cidadão, dita com tanta superioridade veio a fazer sentido para mim! Num dos intervalos dos nossos treinamentos o Grão Mestre Sergio nos levou para conhecer Seul, e nesse passeio fomos à Kukkiwon, local esse em que tive a oportunidade de adquirir o Text Book de Taekwondo (raríssimo no Brasil naquela época), e, lendo o tal livro, visualizei a tal técnica e descobri que na realidade o nome correto de verdade era “Dui Kubi” (뒤 구비) e entendi todos os detalhes da mesma com o auxilio do mestre Sergio... Na verdade eu estava parcialmente errado na minha pronúncia e o cidadão estava completamente errado, porém, o fato mais relevante que foi revelado em minha mente naquele momento, foi que o cidadão em tela, no auge de sua “frase de efeito e superioridade”, apenas utilizou-se de um subterfúgio para não dar a verdadeira resposta, já que não sabia qual era e foi incapaz de admitir tal fato, pois se o fizesse teria de descer do pedestal de “semi-deus” em que adorava estar. Foi neste momento que entendi o sentido de ser mestre.

Fazendo um apêndice e fugindo um pouquinho do tema, foi também nessa viagem que tive a oportunidade de constatar com meus próprios olhos o quanto  o Grão Mestre Sergio é respeitado e conhecido nos meios marciais coreanos! Em todos os lugares relacionados com artes marciais que íamos, haviam figurões que o tratavam com respeito e até certa veneração, competimos e ganhamos medalhas no mundial daquela entidade da qual fizemos parte outrora, e foi lá, na sede mundial deles, que vi mestres idosos pedindo conselhos e orientações ao mestre Sergio, que por sua vez os orientava, e ao final de cada dia de treino, nos levava a treinar madrugada adentro corrigindo erros do que nos era ensinado nos seminários. Para mim, pessoalmente, foi um alívio deixar aquela entidade, que muitos filhos da Semokwan ainda insistem em venerar, mas infelizmente brasileiro adora “pagar pau” pra estrangeiro “só porque ele é estrangeiro”, mesmo que ele não saiba nada, por analogia, é como aconteceu comigo nessas andanças mundo afora, pois toda vez, que alguém descobria que eu era brasileiro, pediam ou para eu dançar “samba” ou mostrar “técnicas de futebol”... eu não sei dançar qualquer tipo de dança e detesto futebol, mas nem por isso deixo de ser brasileiro! Da mesma forma, notei que tinha muito mais a aprender com o Mestre Sergio do que com aqueles coreanos que apenas me olhavam com olhos de “cifrão”, aprendi a tirá-los do pedestal que nós brasileiros inocentemente insistimos em colocá-los, entendi que meu Grão Mestre, brasileiro de nascimento, tinha muito mais a me oferecer do que eles, e aprendi a ouví-lo...

Bom, voltando ao assunto do que é ser mestre, foi ainda na viagem à Coreia do Sul, que quebrei uma outra tradição comum aos faixas pretas brasileiros: Numa loja no centro de Seul, pedi para fazerem uma faixa personalizada para presentear um querido sabomnim mineiro e pedi para colocar na faixa os famigerados risquinhos referentes aos seus dans, foi quando o mestre Sergio me repreendeu e explicou que aqueles risquinhos nada mais eram que ostentação, símbolos de vaidade e não de conhecimento, explicou que o verdadeiro mestre não se apoia nas muletas desses “risquinhos” para demonstrar o quanto sabe ou deixa de saber e desde então deixei de usar tais risquinhos em minhas faixas! Ele (Grão mestre Sergio) ao longo dos anos vem me repreendendo insistentemente e corrigindo os diversos vícios que adquiri treinando com outros “mestres”, e mais, os diversos vícios sociais e pessoais que adquiri ao longo de minha vida.
Quem já conversou com ele, seja pessoalmente, seja pelo Skype, e, antigamente pelo MSN, sabe o quanto ele tem prazer em explicar em detalhes, por horas a fio, todas as nuances, sutilezas e origens dos temas que lhes propomos, houve oportunidade de ficarmos por mais de 10 horas conversando sem parar! No mês em que ficou em minha residência, naquele curto período, eu e minha família, aprendemos muito mais sobre a vida e sobre arte marcial como um todo, do que em todos os anos que vivi e/ou treinei insistentemente técnicas, chutes e torções. Não consigo entender como os faixas coloridas se empolgam muito mais quando ele vem para seus seminários no Brasil quando na realidade, são os professores e mestres quem deveriam estar desesperados para sugar-lhe os conhecimentos.

Baseado nestas experiências pessoais e nas conversas que tive com o Grão Mestre Sergio Fernandes e nos ensinamentos que dele obtive, conclui e entendi o que é ser Mestre:
Não basta saber um amontoado infinito de técnicas ou ter um monte de dans, para ser um mestre, talvez para um leigo isso seja suficiente, ver um cara com um monte de troféis ou risquinhos na sua faixa não é garantia que ele seja um mestre. Na década de 80, quando comecei com artes marciais coreanas, ser faixa preta para mim era o mesmo que ganhar super poderes ao estilo Marvel ou DC Comics, só para vocês terem idéia, até onde sei, somente em 1988 um brasileiro (na realidade quatro deles) conseguiu atingir a graduação de 4º Dan em taekwondo que era arte que eu praticava na época e víamos eles como semi-deuses! Nesta época, criou-se a idiota cultura que para sermos um singelo 1º dan em artes marciais (seja lá qual for) deveríamos treinar por dez até doze anos, conheci outro cidadão, que morava com coreanos, dizia-se quase familiar deles, trabalhava (acredito que ainda trabalha) como escravo para os mesmos sendo por eles explorado e orgulhava-se em dizer que já treinava a 27 anos e que finalmente obtivera a honra de submeter-se ao exame de 2º dan!
Tem muita gente que ainda vê uma faixa preta como algo místico, sobrenatural, mas ela não o é! A faixa nada mais é que um pedaço de tecido costurado  e enrolado e amarrado na nossa cintura, se o seu usuário não tiver conteúdo. Não é a faixa ou o certificado que faz o mestre, mas sim o Mestre que se Faz! Desculpem-me, se ofendo alguém com essa afirmação! A faixa somente simboliza que você cumpriu uma série de exigências técnicas para fazer juz à mesma. Atingir um dan é um desafio para começar a aprender de verdade! Ensino aos meus alunos que a faixa colorida, te introduz ao contexto da arte, prepara seu corpo e sua mente para ser trabalhado, é como se fossemos o couro cru que é curtido para só então ser trabalhado, o faixa preta seria este couro curtido, pronto para ser trabalhado, porém, se você se contentar só com isso, não se tornará “aquele objeto de desejo encontrado nas lojas de artigos de couro” rsrsrs. (comparação besta)
Os Faixas pretas são convidados à responsabilidade, responsabilidade esta que não pode ser exigida de um iniciante (ainda que este a abrace). Se um faixa preta se contentar em acumular técnicas naturalmente acumulará dans, principalmente hoje onde federações são criadas para arrecadar dinheiro de pobres simplórios que se submetem a taxas extorsivas em troca de risquinhos nas faixas, títulos na parede e nenhum conteúdo na mente.

Aprendi que um mestre de verdade deve viver em constante reflexão sobre sua arte, ele não se contenta com frases feitas ou de efeito, ele busca “à fundo” as respostas para as perguntas e dúvidas que afligem seus alunos e discípulos e a si mesmo... E quando inexiste esta busca e esta conciência surge um outro problema: O orgulho!
Vi com tristeza, mestres orgulhosos, que, por possuírem meia dúzia de dans se acham autossuficientes, que acreditam não precisar mais de aconselhamento de alguém mais sábio ou experiente que eles, afinal “ já são sábios e experientes o suficiente”... Ledo engano! Mesmo um grão mestre de verdade, eventualmente necessita de aconselhamento e vai procura-lo quando sentir tal necessidade.
Muitos mestres 4º, 5º, 6º e até mesmo 8º ou 9º dan, veem suas faixas como motivo de orgulho, poder e ostentação, quando deveria ser exatamente o contrário, deveriam ser exemplos de humildade, conhecimento, ponderação, sabedoria e equilíbrio! Outros mestres, da outra ponta linha, por sua vez, só se considerarão mestres de verdade se estiverem “lambendo botas de algum estrangeiro” ou de algum “espertalhão 171” que eleve seu ego com frases de efeito e lhe dê mais dans em troco de dinheiro e não de trabalho duro.

Comprar "um diploma e uma faixinha preta cheia de risquinhos" pode até te tornar um mestre para leigos incautos, mas jamais te tornará um mestre de fato! Aprendi que ser mestre é muito difícil, pois exige paixão e abnegação, exige amor pelos seus discípulos e o desejo de torna-los ainda melhores que nós mesmos! Um mestre de verdade fica profundamente feliz quando um dos seus discípulos o alcança ou até mesmo supera em técnica e sabedoria, pois para ele, o sucesso deste discípulo, seja na arte marcial, seja na vida cotidiana, é o seu próprio sucesso como educador, formador de opinião e de guerreiro.

Agora, neste momento, me vejo pronto para falar, ainda que brevemente, da relação mestre x discípulo.

Mas o que é um discípulo?

Segundo o dicionário Houaiss discípulo é:
substantivo masculino
1        quem estuda; aluno
2        aprendiz, aluno receptivo a ensinamentos
Ex.: Sócrates ensinava a seus d. pelo método da maiêutica
3        aluno, seguidor disposto a dar prosseguimento ao trabalho (de seu mestre); epígono
Ex.: os d. de Freud fundaram várias escolas psicanalíticas
4        seguidor devotado (das ideias, conselho ou exemplo de outro)
5       seguidor convicto (de uma ideia, uma virtude, um ideal etc.)


Em resumo, discípulo é aquele, que sendo abraçado por um mestre, abraça-o como tal da mesma forma. Aprendi que a relação do mestre e do discípulo, diferentemente da relação professor e aluno, não termina ao distanciar-se do dojang, mas se prolonga além de seus muros e se estende até fim da vida, se for verdadeira.
Aprendi, a duras penas que muitas vezes o discípulo deve ouvir o que seu mestre lhe ensina e deve, mais que isso, refletir sobre o que lhe é ensinado, ainda que, a princípio, discorde do seu mestre. Por minha experiência pessoal, aprendi o quanto é difícil lidar com as idéias do Grão Mestre Sergio e o quanto elas podem parecem serem estranhas a princípio, porém, aprendi também que, na maioria absoluta das vezes, eu estava redondamente enganado e ele radicalmente certo!

O discípulo assume um compromisso de levar adiante o conhecimento e os projetos do seu mestre. Na primeira vez que vi o mestre Sergio pessoalmente, no evento de Guaxupé (naquela fatídica época que idiotamente me deixa enganar por um mestre picareta que se dizia discípulo do mestre Sergio) ele me disse uma frase forte, mas que se mostrou muito assertiva: “Arte marcial de verdade não é uma democracia, ela é baseada na disciplina e Hierarquia”, foi quando entendi que um discípulo de verdade segue seu mestre com devoção, e busca incessantemente absorver os seus conhecimentos e, principalmente, busca compreender profundamente compreendê-los, em contra partida, o Mestre de verdade sente prazer em compartilhar o seu conhecimento e se alegra com o crescimento do seu discípulo assim como o pai se enche de alegria como o desenvolvimento de um filho.

Foi conhecendo o Grão Mestre Sergio Fernandes e meditando sobre seus ensinamentos que consegui compreender porque ele insiste tanto que denominemos a Semokwan, não como apenas uma confederação de nível nacional ou internacional, mas como a “FAMÍLIA SEMOKWAN” pois, para nós da família Semokwan, cada membro, seja ele um simples faixa branca, um faixa preta, um mestre e até um grão mestre, somos todos iguais perante ela, somos filhos, que tem um pai amoroso e severo, que busca incessantemente o nosso crescimento técnico, moral e pessoal! É isso que, humildemente, tento transmitir aos meus alunos e discípulos, é esse o meu objetivo como Sabomnim!

 

Espero sinceramente que esta matéria tenha trazido alguma luz aos membros e amigos das artes marciais, da Semokwan e aos leigos que buscam respostas aos seus questionamentos. Este assunto não se encerra aqui, com certeza, não cheguei nem longe de esgotar o tema e estarei disposto e feliz para responder perguntas que lhes surgirem, e, se de imediato não souber a resposta saiba que tenho a segurança e humildade de dizer-lhes que buscarei a resposta junto ao meu Grão Mestre.
Meu e-mail de contato: marcos73tkd@gmail.com